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“Música brasileira é diversa enquanto manifestação artística, mas está longe de ser no mercado de trabalho” diz Dani Ribas em entrevista ao ODC – Observatório da Diversidade Cultural

(Publicado originalmente em ODC, 18/03/2020)

Em entrevista ao ODC, a diretora de Pesquisa do Data SIM, Dani Ribas, Doutora em Sociologia pela Unicamp, especialista em Gestão e Políticas Culturais pelo Itaú Cultural/Universidade de Girona (Espanha) e diretora da Sonar Cultural Consultoria e Pesquisa em Gestão Cultural, analisa os resultados da pesquisa “Mulheres na Indústria da Música no Brasil: obstáculos, oportunidades e perspectivas“, realizada pelo núcleo de Pesquisa da Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM São Paulo), no período de março a setembro de 2019.

Confira a entrevista a seguir.

ODC – Conforme a pesquisa, em 2019, total de 84% das entrevistadas diz ter sido discriminada por ser mulher. Quais barreiras de acesso no mercado são identificadas e o que os dados revelam, frente a essas barreiras, quanto ao crescimento e condições de participação das mulheres no setor?

Dani Ribas – A pesquisa mediu o viés de gênero, ou o quanto ser mulher interfere na vida profissional e quais as principais dificuldades das mulheres em seus ambientes de trabalho. Sobrecarga de trabalho em função da dupla jornada, assédio sexual e assédio moral são as principais delas. Um ponto crucial é sobre perspectiva de carreira. Os números mostram que fatores como filhos e etnia mudam a percepção das mulheres sobre a posição que deveriam estar na carreira: mulheres com filhos ou negras sentem que deveriam estar em posições mais avançadas na carreira, quando comparadas ao grupo de mulheres sem filhos ou brancas. Para além da principal das barreiras que é justamente o fato de “ser mulher”, as principais identificadas são a cor da pele e a maternidade. Entre mulheres brancas, 45,8% pensam que deveriam estar numa posição mais avançada. Já entre mulheres negras, 55,2% pensam que deveriam estar numa posição mais avançada e, entre mulheres pardas, 55,4% pensam que deveriam estar numa posição mais avançada. Ou seja, o sentimento de ter sido preterida por sua cor da pele – que demonstra uma barreira importante – é maior dentre as negras e pardas do que dentre as brancas. O mesmo acontece com as profissionais que são mães. Entre as mulheres que têm filhos, percentual das que pensam que deveriam estar numa posição mais avançada sobe de 48,2% (percentual médio da amostra) para 54,8%. E entre as mulheres sem filhos, percentual cai para 46,1%. O sentimento de ter sido preterida numa promoção cresce entre as mulheres que têm filhos. Importante dizer que os dados mostram que as barreiras de entrada continuam atuando mesmo após a entrada dessas mulheres no mercado de trabalho.

Para além da principal das barreiras que é o fato de ‘ser mulher’, as principais são a cor da pele e a maternidade. Nos EUA, 61% consideram o desenvolvimento ou interrupção de suas carreiras fator decisivo no momento de ter filhos

ODC –  A pesquisa mede o quanto ser mulher interfere na vida profissional e as dificuldades enfrentadas no ambiente de trabalho. Como a realidade pesquisada pode ser avaliada, de forma geral, em comparação com outros países?

DR – A pesquisa brasileira que dirigi foi inspirada e compatibilizada com a pesquisa norte-americana “Women In The U.S. Music Industry: Obstacles And Opportunities” do Berklee College of Music e Women in Music (WIM), que investigou a presença feminina no mercado musical dos EUA. A pesquisa brasileira foi feita sem nenhum financiamento público ou privado. Nós ainda estamos trabalhando na tradução do nosso material e na comparação com os EUA. A falta de financiamento tem sido um empecilho, pois é um trabalho meticuloso que exige tempo e dedicação, além de qualificação técnica da equipe envolvida. E, sem financiamento, esse trabalho torna-se ainda mais moroso. Mas as tendências principais se mantêm nos dois contextos. Por exemplo, nos EUA a pesquisa revelou embate entre carreira profissional e interesses pessoais. Lá 61% das respondentes consideram o desenvolvimento ou interrupção de suas carreiras um fator decisivo no momento de ter filhos. Aqui, no Brasil, os dados coletados acompanham essa tendência. Por outro lado, o Data Sim vai realizar a mesma pesquisa no Chile, e por serem as duas realizadas pelo Núcleo de Pesquisa, será mais fácil tecer comparações.

O percentual de iniciantes caiu, mas o de diretoras não subiu na mesma proporção, demonstrando que há muito a ser feito, por mulheres e homens, para um mercado menos desigual

ODC – Como avalia a evolução da participação feminina na área, quanto ao nível hierárquico?

DR – Assim como na pesquisa americana, dividimos o nível hierárquico de atuação profissional em cinco categorias: Iniciante, Assistente, Coordenação, Gestão e Direção. As mulheres que responderam à pesquisa podiam assinalar quantas áreas de atuação quisessem (muitas se dedicam a várias, simultaneamente), e então elas deveriam assinalar o nível hierárquico em cada uma delas. Em relação ao presente, Iniciantes são maioria, em praticamente todas as áreas de atuação profissional, e as Diretoras só são maioria em cinco áreas de atuação profissional, ligadas principalmente à criação e produção (Criação Musical: 55%; Produção / Staff / Técnica: 30%; Produção Executiva: 39%; Curadoria: 35%; Comercial / Vendas: 29%). As áreas em que há maior homogeneidade entre os níveis hierárquicos são: Marketing; Comunicação / Assessoria de Imprensa / Relações Públicas; Leis de incentivo; Projetos Culturais). Pode-se dizer que a posição das mulheres no atual mercado musical é preponderantemente de Iniciante, ou que atualmente as posições de comando nesse mercado não são ocupadas por mulheres. Diferentemente da pesquisa americana, também refizemos a pergunta, mas em relação há cinco anos atrás. Ainda que as respostas possam transparecer certo “efeito memória” (que atualiza a percepção do passado em função das questões do presente), arriscamos perguntar assim mesmo, para termos certa base de comparação, para traçar uma evolução da progressão de carreira dessas mulheres – e no futuro refazer a pesquisa e checar se a tendência apontada pela comparação se mantém ou não. Considerados os diferentes números de respostas e menções e o “efeito de atualização da memória”, podemos dizer que há cinco anos o número de iniciantes era de 49,5% e hoje é de 29,1%; o número de iniciantes era proporcionalmente maior em todas as áreas (o que pode indicar progressão na carreira); o número de diretoras era de 18% e hoje é de 23%; as diretoras eram maioria em apenas duas áreas (Criação e Produção Executiva) e hoje são maioria em cinco áreas (Criação, Produção Staff/Técnica, Produção Executiva, Curadoria, e Comercial/Vendas). Ainda que o aumento seja pequeno, ele corrobora a hipótese de que as mulheres vêm ocupando espaço nas posições de liderança no mercado. Contudo, o cenário não é totalmente animador: o percentual de iniciantes caiu, mas o percentual de diretoras não subiu na mesma proporção, demonstrando que há muito ainda a ser feito, por mulheres e homens, para haver um mercado menos desigual.

Embora a produção artística brasileira seja descentralizada e diversa, a indústria e suas profissionais concentram-se na região Sudeste, evidenciando as desigualdades regionais do país, o mesmo acontece em relação à origem racial

ODC – O que as análises dos dados mostram sobre as condições de trabalho de diferentes perfis de mulheres?

DR – Perfil das mulheres que responderam à pesquisa: maioria é branca (70,26%), cisgênero (91,67%), solteira (62,25%) e não tem filhos (76,47%). A faixa etária entre 31 e 35 anos predomina, e nas três faixas etárias com maior representatividade na pesquisa, o percentual de profissionais negras e pardas se concentra próximo de 30%. O mercado musical brasileiro é composto por mulheres altamente escolarizadas se comparadas à média da população: 38,3% das respondentes têm curso superior completo e 18,7% têm pós-graduação completa. Das que estão em atividade hoje, a maioria tem até três trabalhos/fontes de renda (não restritos a atividades na indústria da música), mas para a maioria delas (60,54%) a principal renda vem do trabalho no mercado musical. A maior parte de respostas vêm do Sudeste (71,2%), região que concentra boa parte da indústria da música no Brasil. Embora a produção artística brasileira seja descentralizada e diversa – as inscrições para os showcases diurnos da SIM (quando bandas e artistas se apresentam) mostram que todas as regiões do país têm produções de ótima qualidade, a indústria e suas profissionais concentram-se na região Sudeste, evidenciando as desigualdades regionais do país. O mesmo acontece em relação à origem racial. Mesmo com muitas das artistas emergentes sendo negras, a maior parte das profissionais é de origem branca (70%). Apenas 11% delas se identificaram como pretas e 15% pardas. O perfil das respostas mostra, portanto, aspectos que devem ser trabalhados para a construção de um mercado menos desigual. O Data Sim não fez tabulações especiais para extrair o perfil exato de cada região do país, ou ainda por diferentes perfis de mulheres. Mas a base de dados permite tais extrações. Um exemplo é por tipo de vínculo com a fonte de renda: empreendedoras predominam entre as que têm na música sua principal fonte de renda, enquanto freelancers e CLTs predominam entre as que têm na música uma fonte extra de renda. Mas a base de dados permite a extração de perfis mais específicos, basta consultar-nos.

Nos estados e municípios – para os quais o SNC tinha um papel extremamente importante no desenvolvimento institucional da gestão cultural – há, via de regra, as leis de incentivo. Estas sempre foram alvo de críticas por seu poder concentrador, por outro lado, têm sido o único instrumento da política cultural plenamente ativo

ODC – O que a pesquisa demonstra quanto à análise da desigualdade de condições do setor entre as regiões do país? Como avaliaria suas causas, em relação às políticas culturais?

DR – Isso merece um estudo mais aprofundado, já que a pesquisa não se propôs a investigar esse tipo de relação causal. Mas minha impressão, construída ao largo de 20 anos de experiência no mercado da música na análise das políticas culturais,permite arriscar algumas impressões. O Ministério da Cultura retomou, em 2015, a Política Nacional das Artes, liderada pela Funarte, em que a Música era uma das áreas atendidas. O principal ponto levantado nesse processo era a criação de uma agência reguladora para a música, nos moldes da Ancine, demanda antiga do setor. O processo foi inconcluso e não chegou a gerar documentos públicos, apenas materiais parciais. A ideia de uma Agência Nacional da Música, com papel regulador e indutor, surgiu por volta de 2009, por ocasião da realização da Feira Música Brasil, evento patrocinado pela Petrobras, via Lei Rouanet, e realizada pela Funarte/MinC, em parceria com um conselho formado por sete entidades do setor: Abeart, ABMI, ABPD, Abrafin, Abem, Aber, Arpub e FNM. Os agentes ali reunidos, chamados Rede Música Brasil, permaneceram relativamente mobilizados e articulados. Contudo, a ação pública não foi capaz de encaminhar ações permanentes que resultassem na estruturação ou regulação de um mercado. Os únicos documentos resultantes desse processo foram o Plano Setorial da Música (2011), ligado ao Sistema Nacional de Cultura e à participação social; e o Programa de Economia da Música (Maio, 2016), produzido pelo próprio Ministério, mas que nunca chegou a ser implantado, em função das mudanças políticos do país desde então. Sobre este último, escrevi um artigo em coautoria com um dos responsáveis pelo documento, Gustavo Vidigal: Programa de Economia da Música: histórico e perspectivas. Nos estados e municípios – para os quais o SNC (Sistema Nacional de Cultura) tinha um papel extremamente importante no desenvolvimento institucional da gestão cultural – há, via de regra, as leis de incentivo. Estas, se por um lado, sempre foram alvo de críticas por seu poder concentrador, face à falta de um fundo público que desconcentre recursos, por outro, têm sido o único instrumento da política cultural que ainda está plenamente ativo. Mesmo com tal mecanismo operante, o atual contexto é marcado por grandes dificuldades na captação de recursos junto à iniciativa privada, que não se sente encorajada a financiar ações culturais que servem ao seu próprio marketing cultural. Dessa forma e apesar das dificuldades, os mercados regionais carregam as desigualdades macroeconômicas observadas entre as diversas regiões. A pesquisa mostra o percentual de respostas por estado e é possível ver as disparidades regionais. Em todos os 27 Estados, as capitais concentram o maior número de respostas.

Quase 42% das trabalhadoras da música no Brasil trabalha mais de 8 horas por dia ou 40 horas por semana. Isso configura sobrecarga de trabalho que se torna mais grave quando se considera o tempo gasto com tarefas domésticas

ODC – A pesquisa aponta algo grau de informalidade do trabalho feminino e sobrecarga na jornada. Como analisa as condições de trabalho e o reconhecimento das mulheres, considerando-se que a maioria das entrevistadas sente que deveria estar em posições mais avançadas na carreira?

DR – A pesquisa traz uma análise sobre as condições de trabalho na música. Um dos tópicos é a alta informalidade no setor: 60% das mulheres da pesquisa têm na música sua principal fonte de renda, e os tipos de vínculos empregatícios declarados na pesquisa se referem à principal fonte de renda. O número de vínculos formais perenes via CLT (24,8%) é quase igual ao de vínculos informais intermitentes das freelancers (23,2%), demonstrando alta informalidade da cadeia produtiva da música e do trabalho feminino nela. Se as colaboradoras contratadas via PJ (12,7%) forem consideradas um vínculo formal flexível/intermitente, a relação entre vínculos perenes e intermitentes muda: seriam os mesmos 24,8% de vínculos perenes contra 35,9% intermitentes – o que agrava a situação de trabalho flexível da mão de obra feminina nessa indústria. Por outro lado, pensando nas oportunidades em tempos de economia criativa e economia do conhecimento, os vínculos ligados ao empreendedorismo e profissões liberais como consultoras representam expressivos 33% da amostra, e apesar de estarem sujeitos às oscilações do mercado, representam grande oportunidade para investimentos em processos de inovação no setor. Outro tópico interessante é a relação entre horas trabalhadas, renda, escolaridade e comprometimento com a carreira. Mais de 73% delas dedica à música mais de 20h semanais (mais da metade da jornada semanal prevista em lei no Brasil, de 40h semanais). Quase 42% das trabalhadoras da música no Brasil trabalha mais de 8 horas por dia ou 40 horas por semana. Isso configura sobrecarga de trabalho. A sobrecarga de trabalho torna-se mais grave quando se considera o tempo gasto com tarefas domésticas: em 2017, mulheres gastaram em média 20,9 horas por semana em atividades domésticas, contra 10,8 gastas por homens. (Fonte: PNAD-Cont. 2017/IBGE). Ou seja: para cerca de 60% a música é a principal fonte de renda, mas 73% trabalha mais da metade da jornada semanal na música. Portanto, um contingente importante de mulheres dedica a maior parte de seu tempo laboral à música mas não têm na música sua principal fonte de renda, demonstrando o comprometimento dessas mulheres em relação ao seu trabalho na música. Os dados ainda sugerem que, para haver renda considerável na música, é necessária uma dedicação em horas maior do que a sugerida por lei, o que ajuda a rebater a criminalização do setor por seu suposto estilo de vida pouco comprometido com o trabalho. Se for considerada ainda a alta escolaridade dessas trabalhadoras da música, os argumentos para tal criminalização tornam-se mais difíceis de serem sustentados.